Arquivo do mês: agosto 2015

A vocação da donzela – o casamento aos olhos do mundo

a formação da donzela6

  1. Natureza do casamento

1° O casamento aos olhos do mundo.

A maioria das moças pensam no casamento. É muito natural, e é bom falar-lhes dele mui simples e seriamente, para que elas saibam bem, de antemão, a que é que se comprometem.

Madame C. Lavergne escrevia um dia a sua filha: “Espero que estes contos te divirtam, embora mundanos. O Sr. X… escandalizou-se porque, em dez contos, há cinco em que as pessoas se casam. Ele quereria que nunca se falasse disto. O Espírito Santo não é do parecer dele, pois se dignou de nos contar as histórias de Rebeca e de Raquel, de Tobias, de Ester, de Ruth, histórias matrimoniais se as houve!… Mas esse bom senhor quereria que nunca se falasse diante das moças desse mau sacramento”.

Falemos, pois, não “desse mau sacramento”, porém desse grande sacramento. Se sois chamada ao casamento, bom é que tenhais sobre este assunto as graves noções que dele nos dão a razão e a fé.

Um provérbio chinês diz: “O casamento é uma fortaleza sitiada: os que estão fora quereriam entrar”.

Há uma forte ponte de exagero e de ironia nessa definição chinesa. Vós, sobretudo, que vedes o futuro através do prisma dos vossos entusiasmos juvenis, vós não a compreendeis. Como tão pouco compreendeis estas palavras caídas de pena de Taine:

“Os dois se estudam três semanas, brigam três anos, toleram-se trinta anos e… os filhos recomeçam. Começam pelas palavras doces, continuam pelas palavras graves e acabam pelas palavras pesadas!…!

Por que será que a pena mordaz dos críticos se tem comprazido em lançar assim o descrédito sobre esse estado que, à primeira vista, parece tão sublime? Porquanto o casamento é essencialmente a união de duas almas, de dois corações, de duas vidas, união que deve durar até à morte. É que infelizmente, em certa sociedade, as pessoas teimam em não ver nele mais que uma transação, uma maneira honrosa, principalmente para os homens, de por fim a uma vida mais ou menos desavergonhada ou a uma união com o divórcio engatilhado. Por isso, antes de vermos o que é o casamento considerado aos olhos da fé, vejamos-lhe as contrafacções, e o que ele é aos olhos do mundo.

  1. O casamento de interesse. – Há uns que se decidem a fazer do casamento um idílio comercial, uma transação! Não se esposa uma moça, mas o dote! Os dois futuros esposos mal se viram, porém os pais viram o tabelião, e isto basta, ao que parece!

E ousa-se assim tomar como vínculo, como traço de união entre duas vidas, o dinheiro, o interesse, motivo comum de desunião entre os homens! Um coração não se compra, dá-se. Se se vende, não vale grande coisa!

Uma vez mais, em certa sociedade há excessiva tendência a considerar uma moça como um saco de moedas com uma etiqueta e um nome; faz-se a análise da “corbeille” de casamento, apalpa-se o dote e… as pessoas se pronunciam.

Às vezes, o dote é gasto depressa; resta a mulher ao marido e o marido à mulher, sem que nenhum amor venha jamais florescer nesses peitos metálicos. É preciso um dote. Deus sabe à custa de que os esforços, de que privações os pais chegaram a formá-lo. Mas, quando só se vê isso no casamento, as mais das vezes finda-se na separação ou no divórcio, triste epílogo das uniões mal formadas.

Habitualmente, são os pais que preparam, conchavam e decidem esses casamentos de dinheiro; e, quando o negócio está “no saco”, concluído por cima da cabeça interessada, eles dirão a esta: – Vais-te casar com esse senhor; está tudo pronto. – Mas eu não o conheço! – Que importa! Terão tempo de se conhecer quando estiverem casados. – Mas eu não o amo! – Mas ele é rico!… e depois, cale-se! Nós queremos que esse casamento se faça! E se faz!… Dois anos depois, a fortuna está esbanjada e os cônjuges estão em instância de divórcio!… Chegues acumulados na “corbeille” não fazem a união de dois corações. O dinheiro, quando só a ele se vê, é um tirano cruel; não tarda a trazer a discórdia, o ciúme, às vezes até o ódio, entre os dois escravos curvados a seus pés.

  1. O casamento de razão. _ O casamento de razão ou de conveniência é aquele em que, antes de tudo, se tem em mira unir duas famílias, duas fortunas, duas situações. Bem pouco caso se faz dos sentimentos do coração, quase só a “razão” intervém.

É mister que o casamento seja “racional”, sem dúvida, mas a razão é uma faculdade bem fria para que ordinariamente lhe seja lícito intervir sozinha. É preciso que o corpo esteja de acordo com a cabeça, ou que ao menos existe entre os dois esposos uma certa simpatia, que a vida em comum poderá talvez transformar em amor. Mas, se o coração não fala, se protesta, não se deve passar além; não se constrói uma união sobre o egoísmo e o interesse pessoal, e é preciso ser muito virtuoso para edificá-la unicamente sobre o sacrifício.

  1. O casamento de paixão. _ É se casar com o que primeiro aparece, porque agrada, porque o apetite sexual do coração inclina para ele, embora ele seja indigno e talvez mau. É a famosa “paixão fulminante”, que, as mais das vezes também, é uma fulminante cabeçada.

“Casar-se por paixão é embarcar-se para uma longa viagem, no forte da tempestade, com um piloto ébrio e insensato”, diz o Pe. De La Colombiere. Quando um coração é empolgado pela paixão, torna-se surdo e cego! … Por mais que se lhe faça notar a sua loucura, por mais que se lhe dêem conselhos os mais judiciosos, os mais comoventes, ele não quererá ouvir nada. Dispara, está louco! Fazei então ouvir a razão a um louco!

Sob esta impressão primeira, a pessoa empresta ao objeto amado as qualidades mais belas, mais atraentes, mais transcendentes. O amor é uma febre e uma alucinação. Quando chega a um certo paradoxismo, e quando os sentidos também fazem ouvir as suas reclamações ruidosas, a pessoa é capaz de tomar uma decisão irrevogável, à qual tudo deverá ceder, ante a qual os pais demasiado fracos se inclinarão, e que amanhã… arrancará soluços! Será tarde demais!

A paixão é cega, pesada e efêmera.

Cega, não considera no seu objeto senão aquilo que a lisonjeia, ocultando em sombra espessa aquilo que a contraria. Não vê, pois, bastante claro para julgar sãmente, ou só verá certas qualidades físicas que talvez dissimulem muitas deformidades morais.

Surda, impede de ouvir os conselhos da prudência, da razão e da fé. Todos os outros estão de “parti-pris”, só ela tem razão, e tudo o que lhe objetam não tem valor.

Efêmera, exaure-se pela sua própria força e pelos seus excessos. Um nada fá-la nascer, um nada fá-la cair. E, quando desaparece a nuvem de incenso que cercava o ídolo, fica-se despeitado, desesperado, mas é tarde demais. Os liames contraídos sob o império do encanto, estes não cairão; doce grinalda de flores no início, torna-se-ão pesadas cadeias, nas quais o coração desapontado se dilacerá, sem poder conseguir quebrá-las.

Então o desencanto, o enjôo, o ódio, as censuras, as disputas sobrevêm. Parece que era outra a pessoa a quem se amava. E então põe-se na antipatia o mesmo exagero que se pusera na admiração! E a lembrança do ideal dantes entrevisto não basta para fazer suportar a realidade presente. O coração amigo que viera fazer ouvir a voz da razão não pôde ser escutado, a pessoa chocou-se, melindrou-se. A união infeliz consumou-se. Após o que, como todas as outras miragens, esta se eclipsou no momento em que se julgava alcançá-la. O amor é essencialmente nômada. Muitas vezes, já está velho ao cabo de três semanas! (Rouzic).

  1. O casamento expresso. – Este casamento a vapor é rapidamente concluído, no ar, sem que se tenha pensado em cercar-se das precauções comuns que, entretanto, devem intervir nesse negócio capital. – É sobretudo o caso de moças que querem a todo transe sair do seu meio, alforriar-se da tutela da família, que procuram emancipar-se, e, para isso, se lançam sem reflexão, num amor, numa aventura que lhes reserva bem negros pesares.. não se deve precipitar assim uma ação tão grave!… O coração pode ter intuições súbitas, mas é preciso desconfiar das impressões súbitas demais e excessivamente vivas.

É preciso dizê-lo: os maus casamentos não são raros. Às vezes as pessoas se casam com a idéia de que não terão nada a fazer a não ser o seu bel-prazer, e de que poderão libertar-se de tudo o que se afigura um obstáculo à liberdade. Nestas condições, impossível é ficar firme no meio das tentações penosas que se terão de suportar, impossível suportar contrariedades, as dificuldades que pululam. A mulher que assim se lança na vida com semelhante inconsciência, nunca tendo compreendido a grandeza e a dignidade do Sacramento que recebeu, não pode fazer outra coisa senão cortar rente com tudo… Com tudo o que a incomoda e a aborrece. É a consciência fatal de uma união contraída fora do dever e do verdadeiro amor.

Parte  V

A vocação da donzela

Anúncios