A vocação da donzela – parte 5, última parte

5° Como conhecer a própria vocação.

É este um negócio capital, para o qual toda atenção é pouca.

Porque, quantas imprudências sobre este ponto! Quantas pessoas que entram como cegas num gênero de vida sem se perguntarem se ele corresponde bem a seu destino! Como é insensato seguir inspirações humanas numa obra divina!

Essas imprudências transviam a alma para longe da sua predestinação; lançam-na em deveres para os quais ela não era feita e afastam-na da senda em que a graça de Deus a esperava.

Importa, pois, sumamente conhecer a própria vocação, pois a coisa é muito grave.

Ora, nas coisas graves da vida, não se deve fazer nada sem pedir conselho. A respeito da vossa vocação, para saberdes tomar com conhecimento de causa uma decisão de que dependerá a vossa felicidade nesta vida e na outra, deveis consultar a Deus, ao vosso confessor e a vós mesma.

a) Consultai a Deus. – Derrubado no caminho de Damasco, S. Paulo exclamava: “Senhor, que quereis que eu faça? Tal deve ser a vossa oração, pois raras são as vocações manifestas; as mais das vezes Deus nos deixa o cuidado e a honra de procurar a nossa trilha.

Quando, no meio dos desertos, amontoando as areias, o vento faz desaparecer o caminho, que faz o viajador? Levanta os olhos, interroga o céu, procura o seu caminho por entre as estrelas. Fazei como ele: procurai o vosso caminho nos céus. Há lá em cima, alguém que vo-lo pode mostrar.

b) Consultai o vosso confessor. – Não qualquer um confessor, mas, ordinariamente, aquele ao qual vos dirigis habitualmente, que vos segui desde a vossa infância e que conhece os vossos defeitos, os vossos predicados, os vossos gostos, a vossa família. Ele esta em melhores condições do que qualquer outro para vos dar conselhos prudentes e desinteressados. Abri-lhe bem toda a vossa alma, dizei-lhe os vossos atrativos, inclinações, dificuldades, tudo o que sabeis de vós, quer para bem, quer para mal.

E, quando tiverdes falado, esperai, deixai-o refletir. Durante esse tempo pedi a Deus que o esclareça e vos responda pela boca dele.

Suponho que o vosso confessor é um homem de Deus, versado nos seus caminhos, esclarecido, sobrenatural nas suas vistas, liberto de qualquer “parti-pris” e de qualquer consideração humana.

No caso, mais raro, em que tivésseis razões para duvidar a este respeito, conviria submeterdes vossas aspirações a um juiz seguramente competente e desinteressado, por exemplo por ocasião de um retiro. Não esqueçais, todavia, que o papel do confessor é de vos ajudar com seus conselhos e sua experiência, e não de vos impor uma decisão. O hábito das almas, o conhecimento dos caminhos de Deus, os olhares que ele pode mergulhar até o fundo da vossa consciência, tudo isso auxilia-o enormemente e dá um peso imenso aos seus conselhos. Mas, dele, não exijas mais.

c) Consultai a vós mesma. – Refleti!… Estudai vossa alma, vosso coração, vossos gostos, vossas inclinações; examinai vossos atrativos e repugnâncias; perguntai-vos se tendes, quer no tocante ao corpo, quer no tocante à alma, o que vos é preciso para entrardes na vocação que vos atrai. Em linha de conta devem entrar antes de tudo as vossas aptidões físicas e morais, porquanto, de onde quer que venha, a inaptidão para uma vocação exclui por si mesma toda probabilidade de chamado divino.

Às vezes tereis vantagem em consultar vossos pais ou mesmo pessoas que podem ajudar-vos a conhecer a vós mesma; mas não julgueis segundo os princípios do mundo. Iluminai-vos com as luzes da fé e, cercada de todos esses meios de certeza, decidi-vos.

Fazei também a vós estas perguntas:

– Quem é que me chama? É Deus? É a minha vaidade? É o desejo de brilhar, de me fazer notar, de ter uma posição no mundo, de imitar tal companheira?

– Que quereria eu ter feito na minha última hora? O pensamento da morte ilumina dura e cruamente a vida, mas à sua luz a gente se arrisca menos a enganar-se. Com semelhante “refletor” vê-se claro, vê-se longe, vê-se justo.

– Que aconselharia eu a uma amiga que estivesse na minha situação e viesse consultar-me?

– Que razões verdadeiras tenho para me inclinar para tal vocação antes que para tal outra?

d) Quando a dúvida persiste. – Aqui é preciso assinalar certos casos que podem apresentar-se, penosos, angustiosos. Almas a quem a noite circunda ou a quem a dúvida atenaza, aí acharão talvez luzes ou consolações.

1° Tendes tanta inclinação por um estado quanto por outro; na balança tudo se nivela de tal arte, que já não sabeis que partido tomar. Então deveis continuar a rezar; aguardar acontecimentos, uma resposta, um sinal que trace a vossa trilha; deveis ainda recolher-vos, e decidir-vos pelo partido que vos parecer aproximar-vos mais de Deus.

2° Após uma decisão seriamente tomada, após diligências feitas para entrar em religião, a pessoa não pode conseguí-lo. É o caso daquelas que acreditaram ouvir o chamado de Deus, que trataram de responder-lhe, mas a quem não quiseram receber. Ou por inaptidão, ou por dificuldades que elas não tinham previsto, o seu belo sonho rui no momento em que elas iam começar a vivê-lo!…

Às vezes também, a pessoas inicia-se na vida religiosa, enceta o postulado, o noviciado mesmo, e surge um impedimento que tira toda a esperança.

Que fazer então? Pôr-se a vagar solitária e amargurada? Arrastar uma vida inútil? Não. Deus vos chamava às doces alegrias do devotamento? Devotai-vos no século. Essa imolação de um desejo que, por mais irrealizável que seja, só morrerá convosco, contribuirá poderosamente para a vossa satisfação. A virgindade no mundo (como veremos mais adiante) também é uma vocação. Por que então considerá-la como a “míngua de melhor”?

O que importa antes de tudo é uma decisão irrevogável que vos coloque redondamente em face do futuro que se abre diante de vós.

3° As que esperam. A moça não procura o noivo, “espera” que a venham pedir em casamento. E as há que “esperam” muitos anos… O tempo se alonga, as moças se… prolongam… A mocidade se escoa, e, quando chegam as neves da velhice, elas ainda esperam.

Seja como for, quer a “espera” redunde no casamento ou… na decepção, há aí um período a passar; e esse período é crítico. Vós não estais na terra “para vos casardes”, mas para ir para o Céu. Assim sendo, por que vos preocupardes tanto com aquilo que não passa de uma “forma”? Deus escolhe seus caminhos e seus meios próprios. Quando se compreendem bem estas coisas, fica-se entusiasta mesmo assim; a gente se dá todo a Deus Nosso Senhor para seguir a sua vontade presente, até o dia, próximo ou remoto, em que uma nova senha nos for dada.


livro: A formação da donzela- padre José Baeteman
Parte V

A vocação da donzela
Capítulo I

Em Jesus e Maria,
Débora Cristina

Sobre Débora Maria Cristina

email para contato: aformacaodamocacatolica@gmail.com

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